Do outro lado, uma igreja silenciosa
Por Célio Barcellos
Há encontros que não cabem na agenda. Cabem no peito.
Nesta quinta-feira (10), com meu filho ao lado, entrei na sede da Northern Asia-Pacific Division — a Divisão Norte-Asiática do Pacífico da Igreja Adventista do Sétimo Dia — em Paju, Coreia do Sul.
Do lado de fora, o país próspero, organizado, livre. Do lado de dentro, o mapa da missão se abria como quem abre uma ferida antiga: Bangladesh, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Japão, Mongólia, Nepal, Paquistão, Sri Lanka, Taiwan.
Quem nos recebeu foi o missionário brasileiro Edgar Luz, pastor que cuida da Educação Adventista nesse pedaço imenso do mundo. Com ele, Raquel Arrais, esposa de Jonas Arrais, vice-presidente da Divisão, e responsável pelo Ministério da Mulher.
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| Edgard Luz, Raquel Arrais e nós |
A gente pensa que conhece a igreja. Depois descobre que conhecia só o quintal.
A Coreia do Sul tem liberdade religiosa e aparente estabilidade. Ainda assim, desde que pisei em solo coreano, o mundo pareceu de cabeça para baixo.
A impressão não começou na rua. Começou no avião, no corredor estreito onde coreanos, argelinos, indianos e muçulmanos dividiam o mesmo oxigênio e destinos diferentes. Ali, antes mesmo da imigração, a missão já anunciava o seu tamanho.
Quando encontrei Edgar e Raquel, brotou em mim aquele sentimento antigo e quase infantil de família. Encontrar um conterrâneo longe de casa é como ouvir, de repente, a própria língua no meio do vento.
A confiança veio depressa. Pedi ajuda — uma troca de câmbio, dinheiro em espécie para deixar com meu filho — e ele atendeu sem cerimônia, como quem não mede o favor pelo relógio.
Quem vem para cá, que traga dinheiro e cartão físico. Nem todo balcão aceita o mundo digital que levamos no bolso.
Imagino o que acontece no interior de um missionário quando alguém chega de fora. Não é só visita. É um alívio químico, uma avalanche discreta de alegria.
O evangelho, quando é evangelho de verdade, não precisa de discurso longo para nos fazer irmãos. Basta a mesa, o olhar, o sotaque reconhecido.
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| Caryn Lee - secretária na NSD |
Edgar nos convidou para o almoço. Não chegamos. Meu garoto tinha aula na Sahmyook University, e o relógio da missão, dessa vez, perdeu para o relógio da escola.
Ficou a pena — essa pena boa e incompleta de quem sabe que o relacionamento poderia ter ido mais fundo, que havia mais rostos da família adventista à espera de um lugar à mesa.
Como pastor na Associação Paulista Central (APaC), no Brasil, pensei ter visto a igreja. Em Paju, vi a igreja além-mar. E vi também a nossa pressa.
Nós, brasileiros, precisamos com urgência de uma visão mais larga da missão. Precisamos pedir a Deus não apenas o fôlego do trabalho, mas a paciência de quem entende que o tempo dEle não se curva ao nosso.
O que me partiu de fato não foi o prédio, nem o mapa. Foram as fotos. Um internato em Bangladesh com a cozinha tão precária que qualquer comparação com o Brasil soava quase indecente.
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| Cozinha do Internato em Bangladesh |
Pastores que recebem cem dólares por mês. Ministérios em lugares remotos, perigosos, pobres demais para serem ignorados.
Depois fomos à área desmilitarizada. O silêncio dali tem outra densidade. Conversávamos sobre países fechados, sobre o risco que não se publica, sobre o que a prudência cala.
Foi então que o pastor Luz, olhando na direção da Coreia do Norte, disse a frase que ficou em mim como uma pedra no bolso:
“Eu acredito que, do outro lado, existe uma igreja silenciosa.”
Há igrejas que cantam. Há igrejas que constroem. E há igrejas que apenas resistem, sem nome na placa, sem voz no púlpito, sem direito à própria história.
Não fazemos ideia do que é viver longe da terra natal e, ainda assim, permanecer. Há perigos que não se narram — não por falta de palavras, mas por excesso de consequência.
Orem pela missão. Orem pelos missionários. Sejam fiéis a Deus e fiéis também no envio do que a obra precisa. Porque, do lado de cá ou do lado de lá, a missão não pode parar.









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