Conceição da Barra: entre o silêncio e o batuque
Por: Titony Passos
Houve um tempo em que Conceição da Barra, no norte do Espírito Santo, parecia respirar devagar.
De março até novembro, a cidade pertencia aos seus moradores, aos pescadores que conheciam o humor do mar, às senhoras sentadas nas calçadas ao cair da tarde, às crianças que brincavam sem pressa e aos poucos carros que cruzavam suas ruas tranquilas.
Um velho amigo costumava resumir aquele sossego com uma frase que fazia todos rirem: — “Pode sair pelado na rua à noite que ninguém vê.”
Era exagero, claro. Mas todo exagero guarda um fundo de verdade. A Barra dormia cedo, e o silêncio era tão dono das noites quanto a lua refletida nas águas do rio Cricaré antes de encontrar o Atlântico.
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| Pôr do sol no cais entre o rio Cricaré e o Atlântico |
Então chegava dezembro.
Era como se alguém girasse uma chave invisível.
As primeiras malas apareciam nos porta-malas dos carros vindos de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, de Vitória e de tantos outros lugares trazendo famílias inteiras, colchões amarrados no teto, bicicletas penduradas atrás, crianças inquietas e uma ansiedade que nem o trânsito conseguia diminuir.
As casas fechadas durante meses voltavam a ganhar vida, cheiro de café recém-passado e roupas coloridas balançando nas varandas.
Para muitos moradores, aquele era também o tempo da oportunidade. As casas eram alugadas aos veranistas, e muitas famílias passavam a temporada na casa de parentes ou em imóveis menores, sabendo que aquele dinheiro ajudaria a sustentar boa parte do ano.
Os comerciantes aguardavam ansiosos pela chegada do verão. Diziam, com orgulho, que faturavam em três meses o suficiente para atravessar os outros nove. O verão era muito mais do que uma estação; era a alma da economia barrense.
Nos fins de semana, a velha bandinha percorria as ruas anunciando que as férias haviam começado.
Um trio elétrico desfilava pela avenida, ainda tímido, mas suficiente para reunir crianças correndo atrás da música, jovens dançando sem vergonha e amigos que só se reencontravam naquela época do ano.
À beira-mar, os quiosques ganhavam vida.
O som dos pandeiros, dos surdos e dos tamborins misturava-se ao barulho das ondas. As batucadas começavam despretensiosas e, quando se percebia, já havia uma roda inteira cantando, dançando e esquecendo das horas.
A maresia parecia temperar cada conversa, cada gargalhada e cada brinde.
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| Titony em seu momento Harari |
E havia um refrão que ninguém conseguia esquecer. Ele ecoava nos alto-falantes, nos bares, nos quiosques, nos trios elétricos e era cantado repetidas vezes por moradores e visitantes, como se fosse um verdadeiro hino da cidade:
“Conceição da Barra amor de verão…
Conceição da Barra mora em meu coração…”
Quem viveu aqueles dias certamente ainda consegue ouvir essa melodia misturada ao som das ondas.
Janeiro passava depressa. Fevereiro chegava sem pedir licença. E então vinha o carnaval.
A pacata Conceição da Barra transformava-se numa explosão de cores, música e alegria. Quatro trios elétricos percorriam a cidade. Os blocos tomavam conta das ruas.
As batucadas ecoavam em cada esquina. A bandinha seguia firme, lembrando que tradição e festa sempre caminharam de mãos dadas.
Era impossível distinguir quem era morador e quem era visitante. Durante aqueles dias, todos pertenciam à Barra.
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| Momento noturno do verão |
O dia amanhecia ao som da música que ainda resistia da madrugada anterior.
As noites pareciam não terminar nunca. O calor, a areia nos pés, o cheiro da maresia e o sorriso estampado nos rostos formavam lembranças que o tempo nunca conseguiu apagar.
Mas o momento mais emocionante ainda estava por vir.
Na madrugada da quarta-feira de cinzas acontecia o ritual que simbolizava o encerramento da folia: o encontro dos quatro trios elétricos.
Vindos de diferentes pontos da cidade, eles se aproximavam lentamente até ficarem lado a lado.
As multidões se encontravam como se fossem uma só. Cantores, músicos e foliões dividiam o mesmo espaço enquanto o som dos trios, das batucadas e da velha bandinha se misturava numa despedida grandiosa.
Era impossível não se emocionar. Ninguém queria que aquele instante acabasse.
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| Banda Oliveira Filho tocando famosas marchinhas |
Muitos já cantavam com a voz rouca depois de tantos dias de festa. Outros se abraçavam prometendo voltar no verão seguinte.
E, como se a cidade inteira conhecesse aquele sentimento, o velho refrão surgia mais uma vez, cantado por milhares de vozes:
“Conceição da Barra amor de verão…
Conceição da Barra mora em meu coração…”
Quando os trios finalmente silenciavam, parecia que o tempo também parava.
As primeiras luzes da quarta-feira de cinzas revelavam as ruas cobertas de confetes, serpentinas e saudades.
Então as malas reapareciam, agora fechadas. Os carros deixavam a cidade em longas filas. As casas de veraneio voltavam a ficar vazias. Os quiosques silenciavam.
Os comerciantes fechavam mais uma temporada de muito trabalho. Os moradores retomavam suas casas e sua rotina.
Conceição da Barra respirava fundo outra vez. Voltava a ser a cidade tranquila onde, como dizia meu amigo, “podia sair pelado na rua à noite que ninguém via”.
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| Um pouco da Praça da Matriz |
Mas ela nunca voltava igual. Porque em cada esquina permanecia um pedaço do verão.
No vento continuava a ecoar o batuque dos tambores. Na memória de quem viveu aqueles anos 90 permaneciam os encontros, os amores de férias, os amigos que só apareciam em dezembro - e a alegria que parecia não ter fim.
Talvez seja esse o maior encanto de Conceição da Barra. Ela nunca viveu apenas do mar, do rio ou das praias.
Viveu das pessoas.
Das que chegavam todos os verões. Das que nunca foram embora. E das que, mesmo morando longe, carregam até hoje a cidade no coração.
Porque algumas cidades são apenas lugares.
Conceição da Barra sempre foi uma estação da alma
Titony Barcellos Passos é natural de Conceição da Barra, bancário aposentado, reside em Vitória mas nunca esqueceu sua terra natal, onde tem casa há muitos anos.
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