Burke, os evangélicos e o conservadorismo

 


Por Célio Barcellos 
A sentença “... não, eles não têm que votar. Eles têm que ficar pastando junto com o pastor. Deveria ser proibido evangélico votar. Evangélico tem que estar no culto, eles são falsos conservadores. Não leram Peter Burker e nem sabem o que o conservadorismo significa” faz parte de um discurso recente de Eduardo Bueno, conhecido como Peninha, em seu canal no YouTube.

No calor do momento, Peninha parece confundir Edmund Burke (1729–1797) com “Peter Burker”. Burke é amplamente reconhecido como o pai do conservadorismo moderno, especialmente em sua obra Reflexões sobre a Revolução na França (1790). 

Se estivesse vivo hoje, ele provavelmente criticaria tanto as abordagens radicais de esquerda — que buscam mudanças abruptas, desrespeitam tradições e recorrem à censura ou à violência — quanto qualquer tentativa evangélica de impor uma sociedade teocrática, que poderia gerar perseguições semelhantes às de regimes totalitários.

Burke defendia uma visão distante de reacionarismo: mudanças orgânicas, graduais e prudentes, baseadas no respeito às instituições testadas pelo tempo e na sabedoria acumulada das gerações. 

Ele não aprovaria extremismos de nenhum lado, incluindo os que Peninha critica ou os que o próprio Peninha por vezes expressa. 

Parte dessa confusão no evangelicalismo brasileiro pode ter raízes no movimento americano. 

Segundo Nancy Pearcey (Verdade Absoluta, p. 284), ele se dividiu em duas vertentes: uma populista, de estilo revivalista, que priorizava o apelo emocional e atraía as massas, e outra racionalista e erudita, que valorizava os estudos teológicos profundos. 

Ambas contribuíram para avanços e também para problemas na igreja e na sociedade.

O banimento do cristianismo do debate acadêmico, por exemplo, tem origens na Revolução Francesa e, em parte, no evangelicalismo intelectual americano, que às vezes trocou a teologia por explicações puramente racionais e naturais do mundo. 

Por outro lado, a vertente mais mística — com megaigrejas, ênfase carismática, adoração contemporânea e menor foco doutrinário — pode priorizar a experiência emocional em detrimento do conhecimento bíblico profundo, o que representa um desafio para a formação cristã sólida.

Nesse contexto, tanto a igreja evangélica quanto a católica tornam-se vulneráveis a aproveitadores políticos de direita e de esquerda, bem como a influenciadores de ambos os lados.

Diante dessas ondas ideológicas que dominam a sociedade, o melhor antídoto — para cristãos e não cristãos — segue sendo a educação, o estudo sério e o compromisso altruísta com uma convivência pacífica.

Pessoalmente, adoto uma linha de pensamento conservadora e concordo com Burke. 

No entanto, mantenho-me aberto a leituras de outros espectros. Valorizo também o conselho de C.S. Lewis: leia “livros antigos”! 

Nele, creio, reside uma chave para navegar o mundo contemporâneo de forma mais serena, diante de tanta confusão, deselegância e violência.

Minha próxima leitura será The Servile State, de Hilaire Belloc, para entender melhor esse pensador anglo-francês e sua teoria econômica distributista. 

O que mais me impressiona em Belloc é sua capacidade de debater ideias com opositores — como fez com H.G. Wells — sem hostilidade pessoal; ele conseguia discutir no campo intelectual e, ao mesmo tempo, manter uma conversa civilizada no dia a dia. 

Os evangélicos, como qualquer cidadão, possuem direitos e deveres: votar, candidatar-se e protestar pacificamente são garantias constitucionais. 

Contudo, o cristianismo os convida a exercer a cidadania com responsabilidade, buscando sempre o conhecimento e a formação. Um “livro antigo” fundamental para isso é a própria Bíblia Sagrada.

A crítica de Peninha à comunidade evangélica reflete, em parte, sua perspectiva ideológica. Independentemente disso, preconceitos e raiva existem em todos nós em maior ou menor grau. 

Por isso, oro para que Deus nos ajude a todos — inclusive ao Peninha e a mim — a superar tais sentimentos e a viver com mais compreensão mútua.

Os evangélicos fazem parte da sociedade e devem exercer plenamente sua cidadania. 

Ao mesmo tempo, o chamado cristão aponta para algo maior: preparar um povo para o Reino de Deus, sem cair em utopias de domínio terreno absoluto.

Que o Senhor Deus nos faça cada vez mais pessoas amáveis, respeitadoras e de ótimo convívio civilizacional. 

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