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terça-feira, novembro 19, 2019

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Consciência negra é enxergar como ser humano



Por Célio Barcellos

Em meus tempos de criança na pequena Itaúnas, Vila bucólica do litoral norte capixaba, cresci num ambiente de rio, dunas e mar. Eram muitas as estripulias e aventuras nos pântanos, brejos, cajueiros e florestas daquele lindo lugar. Com os amigos Nenê, Toninho, Rivelino, Noirzinho e Mazinho, íamos longe em busca de aventura e muita diversão. 
Se fôssemos separar por cores, o mais branco da turma era o Nenê, que também possuía olhos azuis. Interessante que o Nenê era danado! Vítima de paralisia infantil, não tinha tempo ruim para ir onde íamos. Nadava, pulava da ponte, subia em árvores… era “o cão chupando manga verde” como nos referíamos. Arrumava problema e sempre se safava, incriminando outro. Eu mesmo apanhei muito em casa por causa dele.
Mas deixando de lado o Nenê, uma vez que também não éramos “santos”, voltemos a questão das cores. O Noirzinho era branco e não tinha olhos azuis, o Toninho,  Mazinho e eu, pardos, o Rivelino, possuía a pele mais escura do grupo. Apesar de ter somente um braço, devido a picada de jararacuçú, o Rivelino, à semelhança do Nenê, nadava, subia em coqueiro e tinha uma força terrível. Além do mais, possuía dentes fortes a ponto de descascar cocos (era o nosso facão ambulante nas chácaras do Zé Basílio e João Batista). 
- Os cabelos de todos eram lisos, exceto o meu. Sou filho de negro com branca. Tenho um tio que até me apelidou de “branco apuço”. 
Manoel Viana, remanescente do Comercinho do Parentes
Sempre tive pessoas negras ao meu redor e de convívio maravilhoso. Na própria Itaúnas e no sertão da mesma, conheci negros e mulatos fantásticos. Na Estiva, o tio Manoel Velho (negro) e a tia Ambrosina (branca, de cabelos longos e trançados) formavam um casal formidável. Como não me lembrar saudosamente daquele casal que prazerosamente nos recebia em sua casa e tantos outros viajantes que passavam a pé em direção ao Morro Dantas ou vice-versa?!
Imagem: Rogério Medeiros - Maria Ortiz
Recordo-me com saudades do tio Tobias (negro) e da tia Maria Trindade (com pele cor de canela e cabelo crespo). Foi o primeiro casal a abandonar a antiga Vila de Itaúnas (soterrada pela areia) e a fixar residência na atual.  Do tio Tobias, ganhei um facão que guardei por muito tempo, mas que desapareceu. Eu ia muito à casa deles. Uma residência simples feita de estuque, como a maioria das casas à época. 
Em minha casa, os meus avós, Valdimira era mestiça e de cabelos crespos e João Pequeno, era branco e de cabelos lisinhos, de forte herança portuguesa. E havia em nossa casa, a tia Maria Ortiz, uma cabocla brava. A informação era a de que a tia Ortiz tinha 137 anos. Isso no início dos anos 80. Se era verdade eu não sei mas ela era muito velha mesmo. A tia Ortiz foi casada com o Luiz Italiano, de sobrenome Corsani, expressivo fazendeiro no Córrego Grande. 
Pois é… eu teria muito mais pessoas para serem citadas, porém, ficarei somente com essas. O motivo desta crônica neste 20 de novembro é fortalecer a importância de que somos seres humanos independente da cor. Ninguém pediu para nascer, simplesmente nasceu. O fato de existir o negro, o branco, o amarelo, o mulato e etc…, mostra que somos coloridos à semelhança das flores e isso é algo fantástico. Negar essa beleza é ser daltônico e incapaz de compreender. 
Abdou Aziz - amigo e natural da Nigéria
Se aquela turma da minha infância fosse privada de se juntar devido a cor da pele, dificilmente eu estaria relatando esse texto. Todos os anos quando retorno a Itaúnas e reencontro esses camaradas, às vezes damos muitas gargalhadas das estripulias de meninos. Só fazemos isso, porque somos únicos! Porque somos seres humanos e nos enxergamos como irmãos. Viva o povo brasileiro!



1 comentários:

  1. Fantástica sua crônica. A cor de nossa pele em nada nos difere, mas o que trazemos em nosso interior que nos torna desejável ou inoportuno. Que sejamos desejável como nosso mestre.

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