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segunda-feira, outubro 17, 2016

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O desapontamento na perspectiva de Gabriel



 Por Célio Barcellos

Era manhã de 22 de outubro de 1844 quando um grupo esperançoso de pessoas aguardava ansioso a tão esperada Vinda de Jesus. Após longa espera, o relógio soou meia-noite e Jesus não viera. Dava para perceber os semblantes descaídos e em polvorosa decepção. Eles se entreolhavam pasmos, imaginando ser aquele momento a última coisa que pudesse acontecer. Não existia a possibilidade de dar errado! Os cálculos do Sr. Miller apontavam para esse momento. O que de fato havia falhado? Indagavam todos.

Para uma resposta mais precisa, é necessário viajar no tempo até o (VI Século a.C.). Mais precisamente “no ano terceiro do reinado de Belsazar”, por volta de 548 quando presenciei como anjo do Senhor a aflição do profeta Daniel acerca desse acontecimento (Dn 8:17).  Para aqueles que não estão familiarizados com a literatura profética, o que Deus revelou ao profeta Daniel, foi algo tão extraordinário, que, Ele fez questão de transmitir ao profeta da maneira mais pedagógica possível, pois foram utilizados projeções de alto nível.

Desde o capítulo 2, com o sonho de Nabucodonosor, Deus, já estava revelando a Daniel um escopo de tudo àquilo que se passaria nos séculos seguintes até a instauração definitiva de Seu reino. Coube a Daniel, o jovem cativo, que nunca mais retornou ao seu país, receber de Deus a revelação dos eventos que se sucederiam a partir da Babilônia. Os capítulos 2 e 7 formam a mesma sequência de acontecimentos. Enquanto no capítulo 2, Deus incomoda Nabudonosor, mas revela o sonho a Daniel, no capítulo 7, Deus revela a Daniel, não mais em forma de metais, porém, em formato de animais totalmente exóticos.

No entanto, o capítulo 8, requer uma atenção especial, não que os outros não mereçam essa atenção, mas aqui, os animais são nitidamente identificados. O carneiro simboliza diretamente “os reis da Média e da Pérsia (8:20) e o bode é “o rei da Grécia”. São tão precisos, que os quatro chifres que se quebram do “bode” formam “quatro reinos” (v.22). Uma ênfase na divisão do império grego, por ocasião da morte de Alexandre.

Nesse capítulo, notei Daniel muito assustado. A visão do bode e do carneiro (8) o fez conectar com a visão do capítulo anterior, quando ele percebeu a presunção da ponta pequena (7:25) em usurpar o trono do Altíssimo, perseguir os santos do Altíssimo e mudar a Sua santa Lei. Daniel percebeu que a cena do juízo (Dn7) estava vinculada com a purificação do santuário (Dn8). Deus foi muito sábio em transmitir as informações a Daniel. Ele utilizou recursos audiovisuais de “primeira linha”, superando qualquer equipamento que possa existir, pois transportou o profeta para uma dimensão tão real que nitidamente ficou gravada em sua memória.

Mas uma coisa me chamou muito a atenção quando na última cena (vv. 13,14) dois seres celestiais conversavam acerca da visão. Ao final da visão, percebi Daniel, pálido, sem forças e sem compreender direito tudo aquilo. Foi nesse momento em que recebi a ordem para explicar para aquele servo fiel, o significado de tudo aquilo (v.16).

Como um bom judeu, Daniel sabia da importância do dia da expiação para a purificação e juízo, mas ele jamais podia imaginar que seria para tempos tão distantes. Ficou surpreso, mas confiante com o ser que falava com ele. Ao me aproximar e relatar a profecia das 70 semanas (9:24-27), percebi que entendeu que haveria um juízo para Israel como nação, mas que um juízo universal nos moldes do santuário aconteceria em tempos mui distantes. Ficou nítido para ele, que qualquer associação da profecia das 2300 tardes e manhãs anterior ou posterior ao tempo do fim, seria imprecisa.

Após receber do Céu, repetições e ampliações de todos os sonhos e visões, Daniel percebeu que no tempo do fim, aconteceriam coisas muito difíceis de suportar. Mas logo viu que Miguel estaria sempre próximo de Seu povo. Os elementos temporais revelados a esse grande profeta, lhe causaram muita perturbação, mas ele encerrou o seu livro, na certeza de que muitos o esquadrinhariam e o conhecimento profético se multiplicaria (12:4).

Na condição de testemunha ocular dos fatos, vi quando Deus, através de Jesus Cristo, seis séculos após falar com Daniel, faz cumprir as 70 semanas e escolhe outro profeta chamado João, para clarificar tudo o que foi relatado no livro de Daniel. Interessante, que o elemento temporal contido em (Dn 7:25 e 12:7), reaparece nos escritos de João, na forma de tempo, dias e meses (Ap. 11:3; 12:6,14 e 13:5). Também vi que ao longo da história do pecado, Deus utilizou recursos pedagógicos para clarificar as Suas verdades. Para a compreensão desses elementos temporais, será preciso que o Seu povo extraia da própria Bíblia os meios para o significado, o que pode ser conferido em (Ez 4:6) e Nm (14:34).

E foi isso que vi ao longo dos séculos quando sinceros cristãos procuravam dar o verdadeiro sentido da profecia bíblica. Até presenciei a contribuição de Cláudio Ptolomeu, que não era judeu e nem cristão, mas, como astrônomo e estudioso, analisou as sequências dos quatro impérios do período neo-babilônico com o princípio (dia/ano).Vi também Joaquim de Fiori no século XII providenciar a base para o método histórico de interpretação. Também observei a grande contribuição do gênio Isaac Newton para o entendimento das profecias.
 

Contudo, o grande ápice de todos os estudiosos, foi sem dúvidas Guilherme Miller. Um fazendeiro de Low Hampton que a princípio aprendeu a reverenciar a Bíblia, mas que por influência de amigos céticos mergulhou em literatura filosófica que logo o fez ceder ao deísmo. Após se alistar e combater contra as tropas de Napoleão, as várias mortes presenciadas por ele, o fez refletir acerca de uma vida futura. Vi quando Miller começou a sua busca pelo Salvador.

A grande contribuição de Miller foi permitir que a Bíblia fosse a sua própria interprete. À semelhança de Lutero, ele se debruçou a estudar. Em posse da “Concordância de Cruden”, não passava para o texto seguinte sem antes compreender o que estava lendo. Foi quando após longos anos de estudo, se deparou com o texto de (Dn 8:14) que o perturbou. Percebi um Miller assustado à semelhança do profeta Daniel. Logo vi que ele estava no caminho certo ao relacionar os 2.300 dias de Daniel 8 com as 70 semanas de Daniel 9, e a sua dedução foi muito oportuna ao ligar o período a aproximadamente 457 a.C.

A emoção de Miller me tocou profundamente. Vi quando ele, em 1831, numa sala de estudos fez um acordo com Deus que se tivesse um convite para pregar, iria relatar o que havia descoberto sobre a vinda do Salvador. Após uma hora desse acordo, eis que o seu sobrinho aparece com um convite do seu cunhado Silas Guilford para pregar em Dresden, Nova Iorque. Dai em diante, os convites não pararam. Mais e mais pessoas queriam ouvir das descobertas de Miller.

Eu vi quando Miller um pouco apreensivo, mas sob pressão dos seguidores admitiu que Cristo pudesse voltar por volta de 1843. Ao invés do calendário romano, Miller se baseou no calendário judaico para defender a sua tese. Muitos dos seus seguidores estavam ansiosos por apontar o dia específico. Com a saúde um tanto debilitada de Miller, seguidores como Josias Litch, Josué Himes, José Bates, Tiago White e tantos outros, se tornaram conferencistas itinerantes para anunciar a bela verdade.

Que lindo movimento! Pessoas confessando pecados, perdoando uns aos outros, não se apegando aos bens, anunciando com muita ênfase o retorno do Senhor. Porém, percebi algo que compartilho com os crentes do século XXI: Não se precipitem em anunciar coisas desconhecidas. O erro dos mileritas foi a precipitação. Percebi que os seguidores de Miller foram mais eufóricos em marcar datas do que ele mesmo. Vi pessoas totalmente sem rumo após 22 de outubro de 1844. Passaram muita vergonha, pois as pessoas, a imprensa, se voltaram contra eles.

Após toda essa decepção, o movimento se esfacelou. O próprio Miller ficou deprimido. Mas, um grupo perseverante resolveu estudar a Bíblia. Pessoas como Ellen Harmon, Tiago White, José Bates, Hiram Edson e tantos outros, resolveram buscar de Deus a resposta. Algo tinha ocorrido naquele dia. Compreenderam que naquela data, havia começado o juízo revelado a Daniel.

Com mais prudência no estudo das Escrituras, aquele grupo de crentes foi cada vez mais tendo a certeza das verdades estudadas. Para que não houvesse dúvidas, o Senhor Deus chamou a jovem Ellen para ser a Sua porta voz. E através do Espírito Santo ela foi dando voz ao movimento que veio a se tornar a Igreja Adventista do Sétimo Dia. A princípio, um pequeno grupo sem nenhuma expressão, mas que com o tempo, atingiu o globo da terra, e continua a anunciar as verdades reveladas, mas que ainda não foram totalmente clarificadas na mente de muitos povos.

A despeito da grande decepção de 1844, você que está lendo esse texto, tenha a certeza de que os mileritas apesar dos erros estavam na direção certa quanto aos cálculos. Erraram quanto ao evento. Muitos desistiram por não suportar tamanha vergonha, mas outros, à semelhança de Daniel, perseveraram até o fim, quando descansaram e “ao fim dos dias”, levantarão para receberem a herança.

Portanto, como anjo do Senhor, eu, Gabriel, enviado do Altíssimo, afirmo tudo isso, pois fui testemunha ocular desses e de tantos outros fatos na história do povo de Deus nessa terra. Creia! Viva! Pregue a mensagem! “Porque, ainda dentro de pouco tempo, Aquele que vem virá e não tardará” (Hb 10:37). Maranata!!




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