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quinta-feira, maio 05, 2016

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A cultura do banco




Por Célio Barcellos 

Atualmente, os bancos de algumas praças são ambientes de escravos. Sim, de muitos escravos! Não falo daqueles, vindos d’África, entulhados em tumbeiros, mas dos escravos do vício, dos dependentes do crack e alucinógenos mortíferos. Dos chefes, que promovem e roubam a infância de meninos e meninas desse vasto Brasil. Dos viciados online, compenetrados em si e num mundo distante.
O banco da praça, da frente das casas, da rodoviária, debaixo da árvore, efim... de todos esses lugares, evoca momentos de muita alegria. Ali, naquele espaço, de madeira ou de alvenaria as pessoas falavam, contavam causos, sorriam, caçoavam umas das outras e até mesmo bisbilhotavam a vida alheia, mas também se lembravam dos referenciais.
Lembro-me muito bem do “banco da rodoviária”, em Conceição da Barra, cidade litorânea do Norte capixaba. Naquele lugar, se reuniam diariamente figuras como: Candinho, Antônio Vasconcelos, Atratino, João Primo, os taxistas, Samuel, Monte, Joel e Agostinho. Passavam horas conversando e rindo. Praticamente, todos aposentados que se deslocavam de seus lares e se juntavam aos taxistas para esse passa tempo. De vez em quando, eu me unia a eles para ouvir as suas conversas. Todas as férias, passo para cumprimenta-los e sinto a falta de alguns. Quem dará continuidade à cultura do banco? A esperança, o medo ou a indiferença?
O medo se dá em função dos noiados, escravos do vicio que tomam conta dos bancos e de ambientes afins. A indiferença, fica por conta dos criadores de um mundo onde a conectividade descarta a pessoalidade. Até mesmo o banco das casas, o sofá da sala, a cadeira da varanda, os assentos de embarques, recebem pessoas que se comunicam, mas não conversam, que se interagem, mas não se falam, pois preferem o Wi-FI, a uma conversa franca e real.
O que me alegra é que ainda vejo muita gente boa sentada e conversando no banco. Isso é esperança! Seja na praça, na rodoviária, na frente das casas ou até mesmo num cais. Digo num cais, pois no entardecer barrense, de lindos pôr dos sois, é comum na beirada do Cricaré, as pessoas se assentarem e conversarem. No verão, nem se fala! Fica ainda mais glamouroso, pois os turistas se misturam com os nativos, e em meio à natureza, entre barcos e pescadores há interação e troca de conhecimentos. 
Dia desses, conversava com um amigo e juntos recordávamos dos lares. Independentes de geografia, muitos deles, mantinham bancos de frente às casas, e realizavam uma espécie de “culto ao passado”, onde, não somente memórias saudosistas eram trazidas, mas histórias que evocavam cultura de referências familiares. Em Conceição da Barra por exemplo, há bancos nas praças doados por famílias de sobrenomes fortes, tais como: Benevides, Castro, Daher, Benso, Reuter Motta e muitas outras.
Então.... o banco!  Local onde as pessoas se assentavam e norteavam os passos. Ali, naquele pequeno espaço, de madeira ou de cimento, de ripa ou de coqueiro, ocorriam várias menções, tais como: Vocês se lembram da Maria, jovem professora, filha da dona Marcela e do Sr. Antônio? pois é, ela saiu da nossa pequena cidade e tornou-se renomada escritora; também tem o Carlinhos, filho do Sr. José Bento e dona Francelina, pessoas simples, ele barbeiro e ela fazedora de doces, mas que fizeram de seu filho, engenheiro bem sucedido.
Pois é.... o banco! se bem aproveitado, é um espaço agregador de valores. Lembro-me muito bem de um lugar que chamou-me bastante a atenção – o Rio Grande do Sul. Quando passei por lá, no final da década de 90, vendendo literaturas de “porta em porta” percebi nos gaúchos da fronteira, o costume diário do fim de tarde. Era comum as famílias se assentarem nos bancos ou nas cadeiras e em frente às casas, conversarem ao calor do chimarrão. 
Imagino, que, aqueles momentos serviam para muitas coisas. Quantos conselhos e direcionamentos os filhos recebiam dos pais! Quantos problemas familiares eram evitados e solucionados em momentos como aqueles! Certamente, eram compartilhadas situações de alegrias e de tristezas. O banco não soava medo, mas alegria por conquistas importantes; tristezas por perdas irreparáveis e esperança nas projeções futuras. Espero que os gaúchos ainda mantenham viva essa cultura.
Para todos os brasileiros dos rincões desse país, que os seus bancos não tenham sido dominados por escravos e nem por nomofobistas indiferentes. Indivíduos com medo de ficar incomunicáveis, totalmente dependentes de celular, tablete ou qualquer coisa do tipo.
À semelhança do crack, da maconha, da cocaína e de tantas outras drogas, o mundo virtual tem viciado jovens e adultos, pais e filhos, maridos e esposas e produzido semelhante efeito nocivo, pois o espaço do banco, foi tomado não por conversas culturais e de direcionamentos, mas sim por inculturas e indiferenças, que entorpecem a mente e alucinam a alma.
Pois é.... o banco! Local democrático, que permite ricos e pobres, indiferentes e insensatos se assentarem e fazerem as suas escolhas.
Que a cultura do banco, do respeito, da convivência sejam restaurados! Que as famílias e os amigos conversem mais! Que os valores e referenciais não sejam perdidos! Se assim o fizermos, quem sabe, no próximo embarque aéreo ou terrestre; numa praça ou num cais; ao invés de medos e indiferenças, teremos conhecimento aprendido e também compartilhado.


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