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quinta-feira, novembro 06, 2014

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O Ataque ao Cofre


Por Célio Barcellos

“O ataque ao cofre”. Esse é o título dado ao capítulo 15 do livro “1808” do jornalista Laurentino Gomes. O autor cita a chegada da burocrática e corrupta corte ao Brasil bem como os cerca de 15000 portugueses dependentes da “Ucharia Real”. Os sanguessugas da época formavam uma burguesia cara e voraz. Segundo Gomes, consumiam 513 galinhas, frangos, pombos e perus e 90 dúzias de ovos por dia. Por ano chegavam a 200.000 aves e 33.000 dúzias de ovos que custavam cerca de 900 contos de réis ou quase 50 milhões de reais atualizados. Sem contar a prioridade exigida na compra desses produtos, causando escassez e especulação no mercado.

A corte, apesar de falida por fugir de Napoleão, desejava manter o status de Portugal. Mas como fazer isso?- Um empréstimo junto à Inglaterra para custeio da viagem de Portugal para o Brasil e também para a manutenção da cara corte portuguesa foi a solução.

Os crimes de corrupção e peculato pelos quais os mensaleiros foram condenados recentemente eram escancaradamente praticados à época de D. João VI. Daí se tem uma idéia da dificuldade em punir criminosos do colarinho branco, pois esse tipo de crime era praticado livremente. Inclusive era cobrada uma taxa sobre todos os pagamentos e saques no “tesouro público” uma espécie de CPMF imperial.

Apesar de ser conhecido como o “príncipe medroso”, D. João VI não era nada bobo, pois ao enganar Napoleão e fugir para o Brasil precisava manter toda uma burguesia empobrecida. Para isso teve que usar de meios escusos, obtendo apoio político de uma elite brasileira endinheirada, porém sem prestigio e refinamento. Para tal apoio político, foi necessário distribuir uma variedade de títulos de nobreza, a ponto de Pedro Calmon escrever o seguinte: “Em Portugal, para fazer-se conde se pediam quinhentos anos; no Brasil, quinhentos contos”.

Apesar de a chegada da família real portuguesa trazer melhorias, como a abertura dos portos, estradas para o progresso, escolas, tribunais, hospitais etc., infelizmente deixou uma herança maldita: o ataque ao cofre! Herança essa, que impede o caminho para o Brasil resolver de vez problemas básicos que qualquer nação civilizada se propõe a fazer.

Ao se fazer a associação entre a “Ucharia Real” e o “sistema atual”, qualquer semelhança não é mera coincidência, pois o ataque ao cofre continua. 

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