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quinta-feira, outubro 30, 2014

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Deus odeia o repudio


Por Célio Barcellos e Osias Rodrigues

O divórcio era sem dúvida um assunto bastante discutido no tempo de Jesus e não é diferente nos dias atuais. Os questionamentos feitos pelos fariseus e discípulos há mais de dois mil anos continuam em pleno Séc. XXI. A pergunta dos fariseus a respeito dos motivos para o divórcio mostra clara evidência de coração endurecido. A reação dos discípulos de igual modo indica a dificuldade em aceitar o ensino de Jesus sobre o matrimônio, sugerindo até não casar, uma vez que o casamento é indissolúvel. Isso reflete com clareza o estado de pobreza espiritual e também a dureza de seus corações.

O Divórcio na concepção mosaica

No Antigo Testamento, o marido israelita tinha ao que parece, o direito ilimitado de mandar embora sua mulher por qualquer motivo que o desagradasse. Como, por exemplo, queimar uma refeição. Por esse motivo, Moisés instruído por Deus, elaborou a lei do divórcio para proteger ambas as partes.[1] Em vez de seguir ao plano divino de aceitar a indissolubilidade do matrimônio, o divórcio era considerado como um privilégio. Mesmo a dissolução de um casamento sem qualquer motivo era considerada válida. Com essa concepção Ellen White comenta: “os mestres de Israel estavam tornando de nenhum efeito à sagrada instituição do casamento, o homem estava se tornando tão endurecido que pela mais trivial escusa podia separar-se de sua esposa, ou, se preferisse, podia separá-la dos filhos e mandá-la embora.”[2] 

Ao que tudo indica, parecia ser comum um homem insatisfeito com o casamento criar uma situação para se ver livre do compromisso (Dt. 22:13,14). Nesse caso, a lei entrava em ação para averiguar os fatos, e se não fosse verdade o homem era açoitado e condenado a ficar com a mulher por toda a vida, além de pagar uma quantia em dinheiro ao pai da moça. Entretanto, se fosse confirmada a acusação, a mulher era levada até a porta da casa do seu pai e apedrejada até a morte. Esse conceito juntamente com sua causa, detectada por Cristo, ultrapassou a barreira de tempo e a mesma discussão permeia a vida da igreja e da sociedade em geral.

Divórcio na concepção de Cristo

Jesus enfatizou o princípio bíblico dizendo: “o que Deus ajuntou não o separe o homem.” (Mt. 19:6). Essa afirmação mostra a seriedade do matrimônio como uma aliança. “Todos os que participam desta relação estão unidos por toda a vida, segundo o plano original de Deus.”[3] Em outras palavras estão impedidos de se separarem por qualquer motivo, exceto por práticas sexuais ilícitas. A palavra utilizada para práticas sexuais ilícitas é Pornéia. A infidelidade ao voto matrimonial geralmente tem sido considerada como alusão a adultério e/ou prostituição. No entanto, a palavra (pornéia utilizada no Novo Testamento é traduzida por fornicação ou adultério e abrangem algumas outras irregularidades sexuais. (Cor. 6:9; ITm. 1:9,10; Rm. 1:24-27). Portanto as perversões sexuais, inclusive o incesto, o abuso sexual de crianças e as práticas homossexuais são também identificadas como abuso das faculdades sexuais e violação do desígnio divino no casamento. Como tal, são motivos justos para separação ou divórcio.[4] Isso porque o relacionamento sexual entre marido e mulher, constituem-se um presente do Criador.[5] 

No tempo de Jesus o divórcio era considerado um tanto leviano. Os segmentos relacionados com o tema em Mateus 18 e 19 mostram que a reação em relação ao divórcio era mais um sintoma de que eles estavam com a visão limitada, distante da realidade do Reino de Deus. Assim procedendo não apenas em relação ao divórcio, mas com assuntos envolvidos com o Reino de Deus. A concepção dos discípulos a respeito deste assunto estava baseada na forma como as escolas de Hillel e Shammai compreendiam.

A escola Hillel permitia como motivo para o divórcio tudo que o marido não gostasse acerca de sua esposa. Por outro lado, a escola de Shammai só permitia que o marido se divorciasse de sua esposa se ela tivesse cometido algum tipo de violação sexual. Mas, o que era considerado uma violação sexual? Isso incluía uma mulher ser vista em público com cabelos descobertos ou com os braços desnudos.[6] O que é totalmente contrário à realidade apresentada por práticas sexuais ilícitas no texto, cuja interpretação foi analisada acima. Assim, a desculpa de que Moisés havia dado a carta de divórcio, não condizia com os propósitos originais de Deus para o casamento, pois a relação matrimonial foi instituída por Deus e santificada por Ele.

Dureza de Coração

“...Por causa da dureza do vosso coração (Mt. 19:8).” Essas foram as palavras de Jesus em resposta aos fariseus. Jesus veio ao mundo retificar erros e restaurar a imagem de Deus no homem. Sentimentos errôneos a respeito do casamento haviam-se estabelecido na mente dos mestres de Israel.[7] Quando Jesus fala com os fariseus, aponta para a antiga instituição ordenada na criação. Referindo-se à causa do divórcio, permitida por Moisés, como atitude de um coração endurecido. Jesus não queria agradar o ponto de vista de cada um, pois conhecia-lhes o coração. Porém, com toda a sua autoridade deu uma resposta à altura sobre o assunto, sendo bem claro ao dizer: “quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério (v.9).”

A dureza de coração é o cerne da questão, onde Jesus revela o verdadeiro motivo que está por trás do questionamento dos fariseus e dos discípulos. No capítulo 18:6-10, eles são ensinados a não desprezar os pequeninos e não escandalizá-los, eles não aprenderam a lição conforme demonstra seu comportamento em Mt. 19:13. Conquanto fossem advertidos contra a dureza de coração, os discípulos demonstraram exatamente esse comportamento. O capítulo 18 termina exatamente coma advertência de que o pai celestial estenderá a mão para punir aqueles que do coração não perdoam o próximo. O tema do coração endurecido já está no capítulo 18, embora a frase exata só apareça no capítulo 19:8.

Sem rodeio Jesus identifica que eles sofrem do mesmo mal pelo qual sofriam o povo de Israel, dureza de coração. Sendo essa a causa comum, o esforço de Jesus é combater a raiz do problema que uma vez resolvido não só solucionaria a questão do divórcio como também a todas, que de igual forma os impediriam a entrar no reino dos céus.

Conclusão

O pensamento dos fariseus é o pensamento predominante no dias atuais. Vive-se num mundo de relações matrimoniais descartáveis e, assim como os fariseus, procura- se, hoje, quebrar os votos matrimoniais por qualquer coisa. Com respeito aos problemas matrimoniais Kemp lembra o seguinte: “Não existe um lar que não tenha transtorno, uma desavença, um desentendimento. Porém se esses desentendimentos forem aproveitados corretamente, poderão colaborar para o aprofundamento do compromisso mútuo.”[8] 

É interessante o que diz Kanitz: “o casamento é o compromisso de aprender resolver as brigas e as rugas do dia-a-dia de forma construtiva, o que muitos casais não aprendem, e alguns nem tentam aprender.”[9] Já Bastos diz que “o divórcio é um recurso do egoísta, quando se põe o interesse, o prazer e a paixão, acima da consideração ao outro e aos filhos.”[10] Nesse caso, deve-se cuidar com a cultura liberal que tem invadido mentes, endurecido corações e esfacelado milhares de famílias, desviando-as dos propósitos divinos.

Podemos concluir que, assim como fora no tempo de Moisés e no tempo de Jesus é também nos nossos dias. E a mesma solução para esse terrível problema que tem esfacelado milhares de famílias nos é oferecida por Jesus hoje. Ele Está disposto a transformar corações duros em corações sensíveis. “Cristo sabia que o único jeito de conservar o casamento era tornando-o indissolúvel, porque aí estava o segredo da estabilidade, uma questão vital para a felicidade de um casamento.”[11] Contudo, Jesus ensinou que a única forma de torná-lo indissolúvel é permitir que Ele amoleça os corações. O casamento é uma dádiva do céu. Quando o homem a recebe, estará comprometido com Deus e o seu cônjuge, para salvaguardar incólume restaurando-o a imagem do éden.



                                                                                                                        



[1] Dicionário Enciclopédico da Bíblia, p. 405.
[2] Ellen G. White, O Lar Adventista, p. 341.
[3] Comentário Bíblico Adventista Del Sétimo Dia, V. 5, p. 443.
[4] Manual da IASD, p. 197.
[5] Natanael Morais, Teologia e Ética Bíblica para Solteiros, p. 23.
[6] Revista Hermenêutica, SALT – 2005.
[7] White, p. 341.
[8] Jaime Kemp, A Arte de Permanecer Casado, p. 19.
[9] Stefhen Kanitz, Revista Veja, 29 de Setembro de 2004.
[10] Dirce Bastos Pereira, Vida e Felicidade em Família, p. 141.
[11] Idem, 137.

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