A rendição do inexorável
Por Célio Barcellos
Recentemente estive na Coreia do Sul e, desde então, tenho refletido sobre as dimensões da missão — em especial sobre o modo como Deus fará para romper as cortinas de ferro que ainda resistem em países de regimes fechados, como a Coreia do Norte.
Uma frase do Pr. Edgar Luz não me sai da mente: “Eu acredito que há uma igreja silenciosa do outro lado.”
Foi então que a resposta à minha inquietação começou a se formar nesta manhã de sexta-feira (25/09) no Brasil, enquanto, do outro lado do mundo, a Coreia seguia o seu próprio ritmo de tempo.
O ponto de partida dessa elucidação veio de Moshe Grylak, em seu livro Reflexões sobre a Torá.
A descrição que esse intelectual judeu belga faz da sarça ardente — quando Moisés se aproxima do Monte Horebe — é esplêndida.
Segundo Grylak, a mente de Moisés estava num turbilhão de imagens que o atormentavam. Os ecos do sofrimento do povo o incomodavam.
Ao se interrogar diante da sarça, ele “percebeu, mesmo que de forma obscura, que as leis da natureza não eram absolutas como sempre imaginara.
A imagem fantástica da sarça ardente se sobrepunha às imagens de sofrimento que ocupavam sua mente…”
Nesse ponto da reflexão, recordo o poema de Primo Levi, datado de 11 de janeiro de 1946, que serve de epígrafe a A Trégua:
Sonhávamos nas noites ferozes
Sonhos densos e violentos
Sonhados de corpo e alma:
Voltar; comer; contar. Então soava breve e submissa
a ordem do amanhecer:
“Wstavach”;
E se partia no peito o coração. Agora reencontramos a casa,
Nosso ventre está saciado,
Acabamos de contar.
É tempo. Logo ouviremos ainda
o comando estrangeiro:
A palavra Wstavach é um comando polonês que significa “levantem-se!” ou “acordem, levantem!”.
Na mente de Levi, ela concentra terror, medo e ansiedade. Era o grito ouvido todas as manhãs em Auschwitz.
É bastante provável que, na mente de Moisés, houvesse alguma palavra de mesmo peso. Em meio ao deserto, já distante do Egito, sua inquietação nascia da assimilação do sofrimento do seu povo diante das ordens opressoras do Faraó.
Em meio a esse caos mental, Moisés se depara com um arbusto misterioso. Ele não foge. Simplesmente diz: “Irei para lá e verei essa grande maravilha; por que a sarça não se queima?” (Êxodo 3:3).
Grylak responde a essa pergunta citando o Midrash Shemot Rabá 2:5: “Deus mostrou-lhe as imagens de uma sarça que ardia e não se consumia, como que a dizer-lhe: do mesmo modo que o fogo não consome a sarça, os egípcios não poderão destruir o povo de Israel.”
Se de fato essa foi a percepção de Moisés, deve ter havido uma tempestade de alegria em sua mente. Digo isso porque, ao ler as reflexões de Grylak, algo profundo se aguçou em mim: a certeza da presença de Deus no meio do Seu povo, espalhado pelos continentes, independentemente de qualquer cortina de ferro ou opressão.
A leitura que Grylak faz do Midrash — de que o ocorrido com aquela planta do deserto serve para “ensinar-nos que não há local vazio da Presença Divina, nem mesmo uma sarça” — deu ainda mais sentido à frase de Edgar Luz.
Existe, de fato, “uma igreja silenciosa do outro lado”, ainda que eu não compreenda a demora de Deus em intervir sobre a humanidade.
O que aprendi com essa reflexão é que, da mesma maneira que o Senhor cuidou do povo de Israel, Ele também cuida da igreja.
Se os espinhos daquela sarça representam a resiliência do povo judeu e o preço de ferir as mãos de todo inimigo que tente arrancá-lo, o mesmo se estende à igreja espalhada pelo mundo — visível ou velada — diante dos opressores que ainda insistem em conservar, dentro de si, a natureza do Egito.
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Onde vemos uma cortina de ferro e pensamos que não há igreja, Deus vê um povo que continua firme. Mesmo em silêncio e em meio à perseguição, a chama da fé continua acesa.”
ResponderExcluirAmém! Isso mesmo, amigo. Obrigado por sua apreciação!
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