O Brasil joga no sábado, e agora?
Por Célio Barcellos
Para responder a essa pergunta, além da própria Escritura Sagrada, há uma preciosidade chamada Guia dos Perplexos, de Maimônides, um dos maiores intelectuais judeus do período medieval.
Embora não defendesse o entendimento ortodoxo do judaísmo, ele desenvolveu uma interpretação da Torá numa perspectiva filosófica aristotélica e destacou duas verdades fundamentais sobre a guarda do sábado:
1. O estabelecimento da “opinião verdadeira sobre a Criação do Universo, que conduz ao reconhecimento da existência de Deus numa primeira abordagem e provoca reflexão”.
Aqui ele se baseia em Êxodo 20:8-11, reafirmando que o fato de o Eterno Deus ter criado o Universo já é testemunho suficiente para a guarda do sábado, uma vez que Ele descansou, abençoou e santificou esse dia.
2. A lembrança “da bondade de Deus, que nos outorgou o repouso no lugar das ‘cargas do Egito’ (Êxodo 6:6,7), o que é um tipo de benevolência que envolve uma opinião investigativa verdadeira e produz o bem-estar dos corpos”.
Nesse segundo ponto, Maimônides recorre a Deuteronômio 5:12-15, especialmente ao verso 15, que oferece o bálsamo da liberdade para o povo outrora escravizado. A partir daquele momento, aquele povo livre via no mandamento o lembrete constante da graça libertadora de Deus. O uso correto da liberdade estava nas mãos deles e não do tirano que os escravizara no Egito.
O grande problema é que o cristão que insiste em apegar-se a dilemas éticos para justificar a transgressão do mandamento cai numa tremenda contradição.
Como bem observou Dietrich Bonhoeffer, “os mandamentos de Deus, aliás, foram revelados exatamente para pôr fim ao conflito ético” (Bonhoeffer, Discipulado, p. 47 - versão digital).
Dentro da liberdade civil, quem assume o compromisso com Cristo — a fé que justifica o pecador, e não o pecado — pode até desejar desviar-se da obrigatoriedade do discipulado, que inclui tanto o serviço missionário quanto a obediência à Lei.
Porém, isso não é ético. Uma vez aceito o evangelho do Cristo vivo, quando o cristão começa a justificar a desobediência (seja na guarda do sábado, na profanação do corpo, na alimentação, na devolução dos dízimos e ofertas, em seu não envolvimento missionário ou em qualquer outra área do Reino) por causa de desvios éticos alheios, ou birra de alguém, ele próprio encarna o desvio ético.
Mesmo quando o cristão enfrenta dilemas éticos entre atividades seculares e sua fé, a solução continua sendo o mandamento Daquele que o justificou para a liberdade, e não para o pecado.
Segundo Bonhoeffer, esse problema surge porque, em vez de alimentar-se da graça genuína, a pessoa busca consolo na “graça barata” a fim de “persistir na desobediência”, colocando-se, assim, sob a autoridade do pecado.
Daqui a pouco começam as horas do sábado. Se considerarmos a ortodoxia rigorosa do mandamento, ninguém escaparia da ira divina, pois vivemos num mundo imperfeito.
Mesmo assim, o Senhor Jesus nos convida a descansarmos nEle, pois o Seu jugo é suave e o Seu fardo é leve (Mateus 11:28-30).
O grande problema daquele que se fixa em dilemas éticos e até morais para não obedecer, não percebe que, mesmo sendo “suave” e “leve”, o jugo e o fardo do Senhor ainda existem.
Para tristeza do evangelho, a graça barata tem servido justamente para esconder essa realidade, com a desculpa de não obedecer às ordens do Mestre.
Assim sendo, as palavras do judeu americano Ben Shapiro, em seu livro O Lado Certo da História, cabem bem neste momento:
“A cada semana, esqueço tudo por 25 horas. Como judeu ortodoxo, celebro o Sabá, o que significa que telefone e televisão ficam proibidos. Nada de trabalho. Nada de computador. Nada de notícias. Nada de política [eu emendo: nada de futebol]. Um dia inteiro e mais uma hora para passar com minha esposa, filhos e pais, com minha comunidade [igreja]. O mundo exterior desaparece. Esse é o apogeu da minha vida. Não há felicidade maior do que me sentar com minha esposa, ver as crianças brincando (e, de vez em quando, brigando), ter um livro [Bíblia] aberto em meu colo.”
Portanto, amigos, o sábado é um mandamento do Senhor dado para toda a humanidade. E se a justificativa para não guardá-lo se resume a dilemas éticos do tipo “os guardadores do sábado também não guardam direito”, “trabalham na sexta após o pôr do sol”, “vão a festas seculares”, “seus filhos dançam quadrilha”, “vão à praia ou a eventos esportivos”, “assistem aos jogos do time ou da seleção”… e daí?
Você continuará usando o erro alheio como desculpa para manter seu próprio dilema ético e não obedecer ao mandamento?
Lembre-se: “O diabo somente tem uma solução a oferecer para o conflito ético, que é a seguinte: continue perguntando e, desse modo, estará desobrigado de obedecer” (Dietrich Bonhoeffer).
Sim, o Brasil joga no sábado. Diante do dilema ético e do mandamento, há indiscutíveis razões para a escolha do mandamento. Agora é com você.
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