O que a epigrafia judaico-grega na Antiguidade revela sobre liberdade religiosa?
Por Célio Barcellos
Neste sábado (23), em que a pregação adventista nas igrejas enfatiza a liberdade religiosa — pois defender o direito de as pessoas cultuarem é defender a própria liberdade —, aproveitei o momento de convalescença, em que não pude ir à igreja, para refletir sobre o tema e contribuir, ainda que modestamente, para sua elucidação.
Em uma das aulas sobre cristianismo primitivo na Yale University (plataforma Coursera), aprendi que na cidade de Dura-Europos, localizada na antiga Síria, às margens do Eufrates, soldados, civis, gregos, romanos, palmirenos, judeus, cristãos e adoradores pagãos conviviam em relativa unidade no início do século III d.C.
Segundo os professores Bruce Gordon e Lisa Bailey, havia certa semelhança entre os grupos religiosos no que se refere à arquitetura e ao design dos templos.
Em Dura-Europos existiam a sinagoga, onde os judeus praticavam suas crenças e celebrações; o Mithraeum, santuário do deus Mitra, frequentado especialmente pelos soldados romanos; e a Casa Cristã (Domus Ecclesiae), espaço central para o cristianismo primitivo.
Um detalhe marcante é que todos esses templos tinham origem em edifícios domésticos. Entre eles, a sinagoga se destacava pela maior organização.
Ao retrocedermos no tempo até o século III a.C., encontramos um casamento epigráfico entre judaísmo e helenismo.
Essa constatação pode soar estranha para quem defende de maneira ortodoxa que preservar a pureza bíblica exige o isolamento cultural. No entanto, o objetivo deste texto não é discutir helenização, mas liberdade religiosa.
No livro A Tradição Judaico-Grega na Antiguidade e no Império Bizantino, James K. Aitken e James Carleton Paget dedicam um capítulo à epigrafia judaico-grega.
Eles destacam que, na diáspora, a maioria dos judeus escrevia em grego e que essa língua era amplamente falada por eles.
Ao citarem a extensa obra Lexicon of Jewish Names in Late Antiquity, de Tal Ilan, os autores mostram a profunda ligação dos judeus da diáspora com o grego, inclusive na onomástica — o ramo da linguística que estuda os nomes próprios, sua origem, evolução, significado e processos de nomeação.
Tal Ilan observa que os judeus utilizavam tanto nomes festivos quanto teofóricos. Entre os nomes festivos relacionados ao Shabbat e à Pesach, aparecem Sabatai e Pascásio.
Mais surpreendentes são os nomes teofóricos de origem pagã: Isidoro (dádiva de Ísis), Artemidoro (dádiva de Ártemis), Zenodoro (dádiva de Zeus), Hermias (de Hermes), Heráclides, Serapião, Dionísio e até Vênus. Os autores ainda mencionam, no contexto cristão, o nome Orígenes (filho de Hórus).
Talvez esses dados nos chamem a ter mais empatia com judeus e cristãos primitivos. Afinal, se fizéssemos uma análise onomástica da atualidade, encontraríamos muitos nomes com origens teofóricas pagãs. Conheço inclusive pessoas que mudaram de nome ao descobrir que o significado do seu nome original não condizia com sua fé.
Diante de tudo isso, convido você a refletir sobre liberdade religiosa.
No contexto bíblico, por exemplo, talvez você já tenha lido a história do centurião romano em Cafarnaum sem perceber um detalhe importante: os judeus da cidade insistiram com Jesus para que curasse o servo daquele homem pagão.
O motivo? Aquele centurião, adorador de Mitra, havia construído a sinagoga local (Lucas 7:4-5). E Jesus atendeu ao pedido (Lucas 7:6-10).
Curiosamente, as fontes literárias judaicas quase não mencionam esses doadores pagãos de sinagogas.
Será que não ocorre algo semelhante no meio cristão? Será que em determinados lugares doações de pessoas de outras religiões ou sem religião são omitidas para não “comprometer” a imagem da igreja?
Como reagiríamos hoje se maçons, ateus ou adeptos de religiões de matriz africana contribuíssem para a construção de um templo evangélico? Permaneceríamos fiéis ao evangelho ou abandonaríamos o barco?
Pregar o evangelho exige conhecimento civilizacional básico. Nunca confunda liberdade religiosa com ecumenismo. Você não precisa se abdicar de princípio, crença e valor para um sincretismo religioso. Liberdade religiosa não é isso.
Liberdade religiosa é defender o direito da pessoa adorar e construir meios para que a liberdade de pregar sobre a crença seja para todos.
Se um dia você presenciar um abuso religioso e lavar as mãos simplesmente porque a vítima não compartilha da sua crença, saiba que você está pecando.
Em seu livro Fé & Liberdade, John Graz lembra que a liberdade religiosa tem raízes no cristianismo e que o primeiro autor a usar a expressão libertas religionis foi Tertuliano (160–220 d.C.).
Por isso, o melhor caminho é conhecer profundamente as Escrituras, ter convicção da própria fé, compreender a cultura do nosso tempo e examinar o passado com honestidade e respeito.
O fato de os rabinos conhecerem o grego não significa que estavam helenizados. E, se não fosse a atuação do Espírito Santo auxiliando homens judeus e cristãos na preservação do texto sagrado, dificilmente estaríamos hoje defendendo a Cristo e a Palavra de Deus.
São exatamente 12h15. Enquanto os irmãos voltam da igreja para suas casas, concluo este texto. Espero que, ao lê-lo, você consiga enxergar algo novo em sua caminhada cristã e se comprometa ainda mais com a pregação do evangelho e respeito ao próximo.
Nunca se esqueça: respeito e liberdade andam juntos. E se alguém quiser mudar de religião, ainda que isso cause dor na comunidade, é um direito da pessoa. Num contexto de crença escatológica acerca do juízo, ela se torna responsável pelo seu ato.
Aproveite o tempo de liberdade para a pregação do evangelho!
Que Deus te abençoe e um feliz Dia da Liberdade Religiosa!
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