Júlia e as Rosas perdidas

 



Por Célio Barcellos
Há uma singela história em latim sobre uma menina chamada Júlia, nascida na Bretanha, que vivia perto da orla do mar. 

Além de amar profundamente aquele cenário de ondas e ventos, Júlia adorava os marinheiros — e se enchia de alegria saltitante ao brincar com suas filhas na praia.

Júlia era pobre, morava numa casinha humilde, mas tratava a todos com delicadeza e respeito. Filha de um agricultor, cercada por flores que brotavam ao redor de sua casa, ela as cultivava com carinho e as distribuía, como pequenos presentes, às pessoas que amava.

Nos meus momentos de folga, resolvi estudar latim. Em pouco tempo, já consigo ler alguns textos na língua original, traduzi-los e interpretá-los para o português. A história de Júlia é uma delas e em breve, quero estar lendo os evangelhos. 


Diante desse vernáculo que moldou o Ocidente por quase dois milênios, pergunto-me: quantas histórias foram contadas ao longo dos séculos? 

Histórias luminosas e sombrias; alegres e dilacerantes; sobre política e fé, verdades e mentiras, vida e morte, e tantas outras mais.

Quantas meninas chamadas Júlia atravessaram os dramas medievais, muitas vezes sozinhas e desamparadas, enfrentando a orfandade, a miséria e as injustiças cruéis de sua época?

Quantas Júlias foram sequestradas, abusadas sexualmente, forçadas a casamentos sem escolha, privadas até do direito mais simples: brincar com as amiguinhas no quintal, na rua ou à beira-mar?

A dor é que esse mal não se limitou à Idade Média. Ele persiste, cruel e atual. Do Oiapoque ao Chuí, meninas do Marajó, de Roraima, do Rio de Janeiro e de tantos outros lugares vivem sem segurança plena contra sequestros, violências, assassinatos e o tráfico que as entrega a exploradores sem escrúpulos. 


O pior é a conivência: a mídia, o governo e, por vezes, até os próprios pais se mostram permissivos com conteúdos tóxicos para a infância, enquanto ignoram o que é puro, inocente e essencial para a saúde integral de uma criança.

Vivemos tempos em que brincar na beira do cais, na orla marítima, no quintal com os amigos ou na rua se tornou perigoso pelos riscos reais e obsoleto pela sedução da tela.

Talvez seja a hora de os pais e responsáveis pararem, reconfigurarem prioridades e conversarem mais — com o cônjuge e com os filhos. 

Não se enganem: parar para observar é mais difícil do que devorar um livro. Exige esforço.

Como bem lembrou Fernando de Azevedo, citado por Mário Gonçalves Viana em A Arte de Aprender: “a aprendizagem da observação é a mais longa aprendizagem de todas as artes”. 


Volte-se para a vida real, em vez de se fixar na tela, nos problemas ou nas ansiedades. 

A observação trará frutos profundos: melhorará a concentração para a leitura, abrirá os olhos para a beleza e, quem sabe, permitirá que um olhar atento salve uma criança em perigo — talvez uma pequena Júlia brincando na praça ou à beira-mar, vulnerável e cheia de sonhos.

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