Do Sertão ao Sertão Virtual: Rumo à Antifragilidade em Cristo
Por Célio Barcellos
Enquanto trovões sacodem os céus, relâmpagos iluminam a atmosfera e a chuva cai forte, em casa observávamos a potência da natureza e, ao mesmo tempo, conversávamos sobre a vida, sobre o sofrimento das pessoas e até sobre a morte.
Em certo momento, meu olhar se fixou na estante, detendo-se em duas obras clássicas da literatura brasileira: Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e Os Sertões, de Euclides da Cunha.
A primeira retrata, com a pena seca e precisa de Graciliano, a dura existência do retirante Fabiano e de sua família, numa saga marcada pelas dificuldades extremas do sertão.
A segunda, estruturada em três partes — a terra, o homem e a luta —, descreve o ambiente, o caráter do sertanejo e os conflitos da guerra de Canudos. Dela vem a célebre frase de Euclides da Cunha: “O sertanejo, antes de tudo, é um forte”.
Independentemente de o lugar ser o sertão ou de a pessoa ser brasileira, vejo que o ser humano é resiliente por natureza: extrai forças de onde aparentemente não há, para enfrentar a batalha diária da sobrevivência.
Em Antifrágil: Coisas que se Beneficiam com o Caos, Nassim Nicholas Taleb diferencia o frágil, o resiliente e o antifrágil.
O frágil é quem se refugia na suposta segurança — por exemplo, o indivíduo que busca o emprego público para evitar riscos.
O antifrágil, ao contrário, é o empreendedor que enxerga oportunidades onde ninguém vê e faz acontecer. Um exemplo claro: o frágil vive às custas do Estado e muitas vezes dificulta a vida de quem produz;
o antifrágil lembra figuras como Elon Musk, Steve Jobs e Bill Gates — aqueles que pensam fora da caixa, abandonam caminhos convencionais (como a faculdade) e revolucionam o mundo, deixando pais de cabelo em pé.
O resiliente ocupa o meio-termo da sociedade. São os Fabianos da vida real: no cruel sertão da existência, sonham com um futuro melhor, mas enfrentam não só as adversidades naturais, como também o “soldado Amarelo” (o abuso do poder estatal) e o fazendeiro explorador.
Os sertões e as vidas secas de hoje, porém, não se limitam às caatingas rachadas pelo sol e aos mandacarus.
Eles estão nas palmas de nossas mãos, nos feeds infinitos, nos cliques e nas navegações que distraem, entorpecem nossa capacidade cognitiva e sabotam sonhos e empreendimentos.
Quem leu as obras citadas recorda que, em Vidas Secas, há a figura de Seu Tomás da Bolandeira — o leitor, o intelectual, o “homem aprendido”, admirado por saber ler e falar “difícil”.
Pessoalmente, continuo crendo no poder transformador dos livros e da leitura. Embora grave alguns vídeos, sou apaixonado pela escrita — pelo texto que desperta os sentidos e toca a alma.
Como pastor de igrejas, procuro sempre incentivar as pessoas a dedicarem mais tempo à leitura da Bíblia e de boa literatura.
Assimilei que a escrita integra meu ministério; por isso, compartilho esperança. Me expresso melhor com as letras, do que com a fala. E, se os irmãos da minha comunidade captarem isso, eles serão mais abençoados.
O apóstolo João afirma no Apocalipse: “Bem-aventurado aquele que lê e aqueles que ouvem as palavras desta profecia e guardam as coisas nela escritas” (Ap 1.3).
Se os cristãos assimilassem bem essa bem-aventurança e incorporassem a ideia da antifragilidade à pregação do evangelho, muitos sairiam do sertão virtual, tornariam-se resilientes contra as artimanhas do diabo (que usa até o Estado para propagar suas ideias) e empreenderiam mais — tanto na vida pessoal quanto para o Reino de Deus.
Portanto, cultive o hábito da leitura, reúna sua família para oração e conversas profundas sobre a vida e o Reino.
Concluo este texto orando por você e por sua família. Que neste dia de labuta nos sertões que enfrentar, você retorne para casa vitorioso e ao final da tarde, no pôr do sol, se ajoelhe com os seus e se renda ao Criador.
Aproveite os momentos de chuva e trovoadas para compreender, de uma vez por todas, que todo ser humano é frágil e dependente do único e verdadeiro Antifrágil: Jesus Cristo.








Pr. Célio, suas reflexões sobre a vida e a fé são contínuas inspirações para nós leitores. ( Paulo Lima, filho do Sr José)
ResponderExcluirOlá, grande Paulo, muito obrigado por sua apreciação! Que Deus seja louvado!
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