Da Kombi ao Coração: Ações missionárias que marcam







Por Célio Barcellos
Se há algo que carrego como uma preciosa herança dos meus avós, é a prática sincera da hospitalidade. Durante estas férias, nosso lar se encheu de alegria ao receber o querido Saulo Gonçalves, sua esposa Rose, as filhas e uma amiguinha da família. Eles passaram quatro dias conosco, e essa convivência foi profundamente significativa para todos nós.

Na hora da despedida, sentimos um vazio que tocou nosso coração – a ponto de comentarmos em família como a casa parecia mais silenciosa sem eles. Foi um lembrete doce de como as relações verdadeiras deixam marcas que não se apagam facilmente.

Entre os muitos bate-papos cheios de risos e lembranças, revivemos momentos marcantes dos nossos tempos de formação. Falamos da prática pastoral no Seminário Latino-Americano de Teologia (SALT-BA) e também da época do Mestrado no UNASP-EC. Nessas conversas, voltamos com carinho à memória dos irmãos missionários que tanto nos ensinaram com o exemplo vivo.

Lembramos especialmente do casal Marta e Raul – donos daquela Kombi tão especial –, da irmã Nilda, professora aposentada, e, às vezes, do irmão Ary. 

Que missionários extraordinários eram eles! Saíamos de Capoeiruçú rumo à localidade de Mercês, e eles estavam sempre dispostos, com alegria genuína, a nos acompanhar. Uma pena não ter fotos deles. 

Demos muitas gargalhadas ao recordar as falas típicas do irmão Raul e as discussões animadas com a Marta. Mas, por trás do humor, o que realmente nos marcou foi o desprendimento missionário profundo daquela gente simples e dedicada. 

Eles tinham à disposição a grande igreja do campus, com seus púlpitos convidativos e a tranquilidade da aposentadoria. 

No entanto, escolheram outro caminho: colocavam a Kombi a serviço do Reino, arcavam com todas as despesas, levavam almoço todos os sábados e passavam o dia inteiro entregues ao trabalho missionário e à comunhão com a igreja local.

Além disso, eram dizimistas fiéis e ofertantes generosos. Jamais tocaram no que pertencia ao Senhor, nunca reclamaram da Associação e nem pensaram em usar o dízimo sagrado para cobrir os custos da missão. Que testemunho poderoso!

Guardo com nitidez uma cena que ainda hoje me emociona: a empolgação e a alegria estampadas no rosto do irmão Raul enquanto Saulo e eu ministrávamos – fosse uma pregação ou o estudo da Lição da Escola Sabatina. Ele ficava como que “anestesiado” pela Palavra, absorvendo cada frase com um brilho nos olhos. Que coisa linda e inspiradora era aquela! 
João Ramos e Nicinha

Imagino que grande parte das igrejas na região do Recôncavo tenha nascido justamente de iniciativas como essas: irmãos simples, mas totalmente comprometidos com o Reino de Deus. E eles não estavam sozinhos. Muitos outros colocavam a “mão no arado”. 

João Ramos e Nicinha, por exemplo, realizavam um trabalho missionário e solidário admirável em Capoeiruçú, preparando pães, costurando roupas e montando cestas básicas para os necessitados. 

Havia também o casal Renato e Edinalva (pais do Silvano Barbosa, Pr. da igreja do Unasp), que transformaram sua casa em um ponto de distribuição de alimentos. 

Inicialmente, ao perceber que muitos seminaristas passavam necessidades, o irmão Renato foi até a administração do IAENE e conseguiu levar alimentos que seriam descartados para distribuí-los com amor. Por esse ato, recebeu a carinhoso apelido de "pai dos teologandos". 
Renato e Edinalva

Infelizmente, nos dias de hoje, a igreja enfrenta um grande desafio: a escassez de missionários voluntários. Muitas pessoas aceitam a Jesus, participam de um ritual religioso e sentem que isso basta. 

Mas, como bem alertou o teólogo Dietrich Bonhoeffer, esse tipo de atitude é “graça barata” – uma graça que custa pouco, exige pouco e, por isso, decretou a morte do verdadeiro discipulado. A graça verdadeira, cara, custa a vida inteira, mas transforma de verdade. 

Por isso, eu te convido com o coração aberto, você que é membro de igreja espalhado por este Brasil: envolva-se na missão! Não espere um chamado especial – o chamado já veio na cruz.

Particularmente, oro para que, neste ano de 2026, os irmãos de Jaguariúna, da APaC, de toda a União Central Brasileira e do mundo se empenhem na pregação do evangelho. 
Fausto e Damaris da IASD Florianópolis ministrando estudos bíblicos

O Pr. Romualdo Larroca ao assumir a presidência da APaC disse o seguinte: “É Bíblia na mão, joelho no chão e Jesus no coração.”

Quem abraçar esses recursos simples – a Palavra meditada, a oração constante e o amor por Jesus – certamente terá a mesma disposição e o mesmo desprendimento missionário daqueles queridos irmãos baianos que marcaram para sempre minha vida e a do Saulo nos nossos primeiros passos rumo ao ministério.

Que essa herança nos inspire a viver uma fé que não se contenta com o mínimo, mas se entrega por inteiro ao Reino. Vamos juntos? O campo está pronto, e o Senhor conta conosco! (Mateus 28:18-20).

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