O legado dos avós parte 2

Por Célio Barcellos

No texto anterior iniciei falando sobre o filósofo judeu-alemão Franz Rosenzweig para escrever sobre a linda história de Catalina Perez. No entanto, como hoje é comemorado o dia dos avós, não posso deixar de mencionar a influência dos meus avós em minha vida. No que se refere a religião, em particular devo à minha vó o incentivo para participar do catecismo e também o hábito de ir à igreja. 

O meu avô não era muito de ir à igreja, mas em casa tinha um oratório com a imagem da Penha. Inclusive, antes de morrer passou para a Dona Dorota do Sr. Osmar (ambos in memorian). Desde pequeno, eu nunca gostei de venerar imagem de escultura. Respeito a fé de quem o faz, mas nunca entrou em minha mente venerar algo inanimado feito por mãos humanas. Mas como mencionei, sempre respeitei quem o faz.

Sou grato a Deus pela herança religiosa deixada por meus avós. Uma coisa que minha vó nunca conseguiu convencer-me era frequentar terreiros de umbanda. Ela era um tanto sincrética nesse sentido, mas passava vergonha comigo. Por duas ocasiões lembro-me muito bem que ela ficou muito constrangida. 

João Pequeno e Valdimira, meus saudosos avós

Quando eu era bem criança, no período em que moramos na cidade de Pedro Canário, norte do Espírito Santo e divisa com a Bahia, sem poder me deixar em casa, a minha vó caiu na bobeira de me levar a um terreiro.

Eu um tanto desconfiando, perguntava: Para onde vai me levar a essa hora vovó? Ela não me respondia nada. Quando nos aproximamos, comecei a ouvir os tambores e ao adentrarmos aquele ambiente e perceber pessoas em êxtase, eu dei um grito, dizendo: "sai dessa macumba vó!" E sai numa correria daquele ambiente. A minha vó, morta de vergonha teve que voltar comigo, pois eu bati o pé e não entrei mais. 

A outra ocasião, foi quando saímos de Pedro Canário a pé em direção a Itaúnas, para a festa do Cosme e Damião. A estrada por onde passávamos, tem aproximadamente 30 km até o local. O nosso ponto de descanso era a Estiva, na casa do tio Manoel Velho e da tia Ambrozina. Pense num lugar que eu amava! Ali era próximo ao Córrego Grande e Comercinho dos Parentes. Lugar de origem de minha mãe e dos meus avós. 


Pois bem, após descansarmos, no dia seguinte partimos bem cedinho. E o detalhe é que a minha vó ainda tinha que me levar no colo, pois eu vazia um escarceu reclamando de dores nas pernas. Não dá nem para contar, mas minha vó passou muita vergonha comigo. 

Ao chegarmos em Itaúnas, cansados, particularmente eu dormi bem e no dia seguinte aparentemente tudo estava normal. Eu observava à distância as conversas dos adultos, porém, bem ressabiado, uma vez que eu já tinha visto o salão que exalava cheiro de almesca,  repleto de bandeirolas e os muitos tambores. Fomos dormir enquanto os tambores soavam a noite inteira.

Eu tinha uma camisa marrom, de tecido sintético e a tia Margarida ao passar as roupas, deixou o gomador (anterior ao ferro elétrico) encostar e danificar a camisa. Para que isso foi acontecer!? 

Acho que eu fui o primeiro a acordar e seguir direto para o outro lado da rua. Vovó foi ao meu encontro, pois estava à minha procura para tomar o café da manhã. Nisso, mais pessoas a acompanharam. Ela começou a falar e eu quieto. Insistiu para que eu fosse tomar o café, e eu disse: vamos embora vovó... vamos embora vovó... Ela insiste novamente e eis que do nada, dei um salto e falei: "Eu não vou tomar café de caboclo, pois olha o que caboclo me fez"? 

Igreja católica na Vila de Itaúnas em que dei os primeiros passos na fé

Eu apontava para o queimado na camisa, associando que havia sido uma entidade espiritual quem efetuou aquele ultraje em minha roupa. Ninguém me fez tomar aquele café da manhã. Mesmo contrariada, a minha vó pegou as coisas e fomos embora. 

Quantas vezes minha vó e eu demos gargalhadas dessas ocasiões! De volta em definitivo para Itaúnas, vovó, vovô e eu, costumávamos passar horas à luz de lamparina lembrando causos. Nós ríamos... era algo maravilhoso. 

Arte do Kairos retratando a minha infância com os meus avós

À medida em que fui crescendo a maturidade também se desenvolvia. Continuei não sendo simpático àqueles ritos africanos, mas nem por isso deixei de conviver com pessoas que gostavam. O legado dos meus avós acerca de religiosidade é que eles me incentivaram no catolicismo, pois era o que conheciam. Tanto que toda vez que retorno a Itaúnas, sempre encontro ou até mesmo vou ao encontro das minhas primeiras catequistas - Zirinha e Zulmira. 

Uma das visitas a Zirinha e familiares no Angelin, antigo quilombo em Itaúnas

A única reação negativa que presenciei a algum religioso, foi por ocasião em que um líder de determinada religião afrontou o meu avô por ele ter a imagem da Penha em casa. A pessoa, a quem eu conheço muito bem (mas evitarei escrever o nome aqui), foi muito indelicada e desrespeitosa para com a fé do meu avô. Foi a única vez que vi o meu avô bravo com alguém de outra religião. Ele simplesmente pegou o facão e tocou o cara de lá (rssss). 

Pois bem, os meus avós já se foram há mais de duas décadas. No entanto, as coisas que me ensinaram permanecem. Eles, antes da morte, reconheceram a Jesus como Senhor de suas vidas. Fiz a pergunta sussurrando em seus ouvidos e uma oração com eles. Na verdade, o Sérgio, esposo da prima Zilma, fez um apelo anos antes e eles decidiram reconhecer Jesus Cristo como a única solução e esperança.

Não frequento a igreja católica, pois decidi pelo protestantismo, mas reconheço a importância da religião em minha vida. Há 14 anos atuo como pastor, porém, jamais deixarei de relatar o trajeto que me trouxe até aqui. 

Que Deus abençoe a todos! Feliz dia dos avós! 

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